Indicada pelo governo Donald Trump para falar no Conselho de Segurança da ONU sobre a situação de seu país, a diretora-executiva da ONG Transparência Venezuela, Mercedes de Freitas, disse não compreender o recuo do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em relação à acusação de que Nicolás Maduro lideraria o chamado Cartel de los Soles.
“Não entendi. Não tenho a menor ideia do porquê. Foi muito estranho”, afirmou ela em entrevista à coluna nesta quarta-feira (7). “Talvez, quando o julgamento avançar e as provas e testemunhas forem apresentadas, isso fique mais claro. Mas, até agora, não fez sentido.”
A fala ocorre após o Departamento de Justiça ter divulgado uma versão revisada da acusação contra Maduro, abandonando a tese de que o Cartel de los Soles seria uma organização criminosa estruturada e liderada pelo ditador. A nova redação descreve o grupo como um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentada pelo dinheiro do tráfico de drogas —movimento que gerou questionamentos inclusive dentro do próprio governo Trump.
Mercedes foi incluída como oradora na reunião de emergência do Conselho de Segurança, realizada na segunda-feira (5), após pedido dos Estados Unidos [veja vídeo acima]. Segundo ela, a indicação não partiu diretamente de Trump. “Não acho que ele saiba quem eu sou. O convite veio de pessoas envolvidas na organização da sessão, que queriam que eu apresentasse a situação da Venezuela a partir das nossas investigações”, disse.
A ativista vive em exílio na Espanha desde janeiro de 2024. Dois meses depois, a Transparência Venezuela anunciou o encerramento de suas atividades no país, que passaram a ser conduzidas a partir do exterior.
Na ONU, a diretora da Transparência Venezuela apresentou dados de levantamentos conduzidos pela ONG ao longo de mais de uma década. Segundo ela, a entidade identificou ao menos 172 casos de “grande corrupção” já judicializados fora da Venezuela, em cerca de 30 países, incluindo Estados Unidos, Espanha, Portugal, Suíça, Argentina e Brasil. No total, somando investigações abertas internamente e denúncias documentadas por órgãos oficiais e jornalismo investigativo, o número chega a cerca de 500 casos. Desses, 91 foram atribuídos diretamente ao governo de Caracas e 6 ao Brasil.
“São casos que envolvem setores estratégicos —energia, água, saúde, alimentação e, sobretudo, a indústria petrolífera— e que atingem diretamente a população”, afirmou. De acordo com Mercedes, aproximadamente 90% dessas investigações têm relação direta ou indireta com a PDVSA, a estatal venezuelana de energia. “Não se trata de corrupção de baixo escalão. Envolve altos funcionários do Estado, pessoas com poder de decisão.”
A ONG sustenta que Maduro aparece como o principal elo dessa rede, tendo desviado US$ 72 milhões em recursos públicos. “Quando analisamos as conexões, ele é o hub, a ponte estrutural entre várias sub-redes, porque nomeou pessoas, autorizou contratos ou manteve vínculos diretos que conseguimos mapear”, disse. Parte dessas informações está reunida no site corruptometro.org, plataforma mantida pela entidade com dados sobre esquemas de desvio de recursos públicos desde 1999.
Sobre o narcotráfico, tema central da controvérsia envolvendo o governo americano, Mercedes afirmou que as investigações da Transparência Venezuela apontam que o país funciona majoritariamente como rota de trânsito, e não como produtor de cocaína. “Não há grande produção em território venezuelano. O que existe é tráfico e passagem de drogas, especialmente nas fronteiras com a Colômbia”, disse.
A diretora também mencionou economias ilícitas ligadas à mineração ilegal de ouro, extorsão, tráfico de pessoas e drogas. De acordo com estimativas da ONG, só o narcotráfico movimentou cerca de US$ 8 bilhões em 2024. “São crimes que prosperam em um ambiente de captura do Estado e de ausência completa de instituições independentes”, afirmou.
Para Mercedes, a retirada de Maduro do poder após a operação americana não significou o início de uma transição democrática. “Vejo apenas um rearranjo das forças. Os mesmos dirigentes continuam lá. Não estamos em uma transição real”, afirmou.
Ela disse ver com preocupação a centralidade exclusiva dos Estados Unidos no processo e defendeu uma atuação mais ampla da comunidade internacional. “Não pode ser uma questão só dos EUA. A Venezuela precisa de um esforço muito maior, de vários países, especialmente da América Latina“, disse.
Segundo ela, a região se omitiu durante anos, apesar da crise humanitária e do êxodo de milhões de venezuelanos. “Este é um momento em que os países latino-americanos deveriam assumir um papel ativo. Líderes com credibilidade, como o presidente Lula, podem ajudar a impulsionar uma saída democrática”, afirmou.
“Criticar a ação militar é legítimo. Mas, depois disso, a pergunta é: e agora? O que o resto do mundo vai fazer?”, disse. Para a diretora da Transparência Venezuela, sem pressão internacional coordenada, não haverá reconstrução institucional nem garantia de Estado de Direito no país.
com IVAN FINOTTI (INTERINO), DIEGO ALEJANDRO, KARINA MATIAS e VICTÓRIA CÓCOLO
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