Tarde da noite, a recepcionista de um hospital tailandês de repente se vê diante da tarefa ingrata de ajudar um aspirador de pó com a localização de um paciente. O eletrodoméstico, um tantinho impaciente, se revela possuído pelo fantasma de uma mulher, que busca pelo amado hospitalizado no local.
Descrita assim, esta cena insólita parece saída de uma história de horror, mas ela na verdade desperta algumas risadas do público no filme “A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além”. Primeiro porque o aspirador, longe de um ser assustador, se mexe de forma ridícula, sempre à base dos barulhinhos de suas rodinhas. Mais inusitado, o aparelho também é bastante educado —quando informado pela atendente que ele só pode ver o paciente de manhã, por exemplo, ele se apruma na sala de espera e aguarda calado pelo raiar do sol.
A imagem de uma assombração solícita define a premissa do longa tailandês, que venceu a última edição da Semana da Crítica do Festival de Cannes e foi escolhido representante do país no Oscar deste ano. Na contramão dos espíritos indignados e fanfarrões, a comédia dirigida por Ratchapoom Boonbuchachoke envolve fantasmas que retornam dos mortos apenas para voltar ao trabalho —sempre na mesma fábrica, curiosamente, onde passam os dias montando eletrodomésticos como aspiradores de pó.
Estreante na direção de longas, Ratchapoom afirma que a imagem dos espíritos na labuta sempre esteve em seus pensamentos. “Eu sinto que a gente vive em um tempo tão difícil que até mesmo os mortos precisam garantir o próprio sustento, trabalhando para pagar o aluguel ou coisa do tipo”, diz ele durante uma videochamada.
O diretor resolveu desdobrar esta ideia para dentro de elementos da rotina e da cultura do país, atento ao que ele define como a experiência de vida queer na região. A própria questão da gentileza dos fantasmas, por exemplo, reflete a forma como os tailandeses da comunidade LGBT são tratados por suas famílias.
“A gente convive por aqui com um clichê de que, quando você é queer, os seus pais aceitam a sua identidade desde que você seja uma pessoa boa e útil”, diz Ratchapoom. “Este amor condicional, no qual você pode ser amado com a condição de que você seja produtivo de alguma forma, é danoso para a gente em um nível emocional.”
O filme ganhou corpo de vez quando o diretor resgatou para o roteiro a lenda de Mae Nak, conto do folclore tailandês sobre uma mulher que é impedida de ficar com o marido após a morte por conta dos preconceitos do seu vilarejo. A lenda ressoava os temas LGBT que o interessavam, diz ele, pavimentando o caminho da história que ele queria contar.
Esta tragédia é recontada em “A Useful Ghost” a partir da trajetória da protagonista, que habita o tal aspirador da sala de espera do hospital. Esposa de um dos filhos dos donos da planta, ela sofre com a reprovação da família sobre o seu casamento, uma situação que continua viva mesmo depois que ela morre e retorna como um eletrodoméstico.
Para conseguir a bendita simpatia familiar, ela acaba concordando em servir de caça-fantasmas da fábrica, lidando com as assombrações que insistem em habitar os produtos e voltar a trabalhar na linha de produção.
A crítica aparece de maneira bem óbvia neste momento. Todos os espíritos combatidos pela personagem são antigos operários da fábrica, explorados até o último suspiro de vida pelas condições precárias do trabalho diário e maçante. A saúde debilitada dos funcionários fica implícita nos acessos de tosse recorrente dos trabalhadores, um reflexo da grave condição da poluição do ar nas principais cidades do país —segundo o diretor, um elemento presente desde o primeiro rascunho do roteiro.
Apesar do clima pesado, “A Useful Ghost” trata todos esses assuntos com leveza. A história tem um quê de conto de fadas, filtrada por um humor irreverente e criado nos momentos mais inusitados.
O aspirador da protagonista, por exemplo, assedia o marido logo no começo da história, com o seu cano abrindo a sua camisa para sugar o seu corpo inteiro. O filme também mostra o aparelho enfrentando uma geladeira imensa, no qual ele termina inteiro desmontado; pouco depois, de volta ao hospital, os personagens discutem como reconstruir o fantasma sem ferir as diretrizes da fábrica —o eletrodoméstico é propriedade da indústria, afinal.
Para Ratchapoom Boonbunchachoke, a comédia foi a forma que ele encontrou de escapar do cinema de horror nacional, um tipo de produção que anda mais do mesmo em sua avaliação. “Eu sinto que este tipo de cinema tailandês cansou, e comecei a me perguntar se fantasmas poderiam fazer algo de diferente nos filmes”, explica o diretor.
“Como cineasta, eu gosto do humor, então era inevitável que escrevesse estas situações cômicas na história. Me pareceu mais confortável ver o absurdo da premissa por este ângulo, até porque acho engraçado a ideia do encontro de humanos com fantasmas. Eu queria muito mais fazer um filme assim do que apenas uma história de horror tradicional.”







